quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Meu amigo Pedro.

Ele gostava de Torrone. É um detalhe que guardo com todo carinho dentro de mim. Sempre que vou ao supermercado e vejo um pacote me lembro dele no mesmo instante. Vou começar do início. O conheci quando eu tinha entre 9 ou 10 anos. Eu percebia que talvez ele fosse mais velho do que eu pois, era muito alto. Nós estudávamos na mesma escola. Uma escola que unia os alunos e acolhia todas as crianças,desde as com problemas comportamentais até as com deficiências físicas e mentais. Conviver com pessoas diferentes como se estivéssemos na mesma "família" foi muito importante para a formação do meu caráter e de como vejo o mundo... mas essa é outra história. Quero contar sobre meu amigo. Ele se chamava Pedro. Era muito diferente dos outros alunos e foi isso que fez dele tão especial pra mim. Ficava o observando o tempo todo...descobrindo do que ele gostava de brincar, sobre o que conversava, quais eram suas atitudes, seus amigos...Ele era quietinho, tímido e adorava "reinventar" brinquedos. Eu o via brincando com um pedaço de papelão imaginando que fosse um avião, ou talvez com um cano de plástico que estava jogado no pátio. Ele não ligava para brinquedos espetaculares, bonitos e que estavam super na moda entre nossos colegas. Ele se contentava com o que encontrava pelo caminho e era muito feliz e criativo. Vendo tudo isso eu pensava: "Que imaginação que ele tem! Também quero fazer parte disso!" Porém, ele ficava muito na dele. Alguns alunos o humilhavam e zombavam dele apenas pelo fato de ser "desengonçado" e não brincar "da maneira que deveria", além de ser alto ele também tinha barba. Eu vi que ele não se sentia seguro e passou a se esconder... Eu pensava: "Como vou fazer para que ele saiba que pode confiar em mim?" Tentei me aproximar aos poucos. Pegava alguns lápis coloridos e papel para desenhar perto dele...e tudo o que ele fazia era virar as costas e continuar o que estava fazendo. Mas, eu não desisti. Todos os dias eu fazia algo para chamar a atenção dele. Desenhava, o convidava para brincar, pegava bolas de futebol e ficava batendo na parede até que ele, finalmente, me notou. Foi até o pátio e quis brincar comigo. Comecei então a conversar... Ele não gostava muito de falar. Mas, o pouco que falava comigo, eu já achava o máximo. Fomos ficando mais próximos, embora, a cada dia eu tivesse que "conquistá-lo" novamente. Eu não podia simplesmente num dia falar com ele e no outro não, meu dever era sempre estar próxima dele para que pudêssemos ficar amigos de verdade. Essa escola sempre fazia excursões, íamos para São Paulo, Belo Horizonte... Sempre que um aluno precisava de atenção especial, um professor ia como seu companheiro sentado ao lado da criança, porém, numa dessas viagens, pedi para que o professor me deixasse fazer companhia para o Pedro. Depois de muitas orientações para que eu o chamasse se acontecesse alguma coisa como se ele começasse a passar mal, ou se estivesse com medo, o professor atendeu a minha solicitação. Comecei a conversar com ele e, algumas vezes contava algo engraçado e ele ria. Essa era uma das coisas que gostava de fazer. Ele adorava rir. Quanto mais ele ria mais eu me sentia feliz e realizada de poder fazer parte da alegria dele. Na primeira parada que fizemos para tomar um lanche e ir ao banheiro, Pedro comprou um Torrone. Na verdade ele comprou 3 pacotes de Torrone. Era o doce que ele mais gostava. Chegando ao ônibus ele dividiu o Torrone comigo...e como nós comemos! hahaha Ao descer do ônibus para chegar ao nosso hotel, fui pegar minha mochila no bagageiro e Pedro foi guiado por um professor. Durante nossa estada na cidade, nós fazíamos vários passeios e eu sempre ficava perto do Pedro...para saber do que mais ele gostava. Ele estava se divertindo. Começou a se soltar mais e cumprimentava a todos na hora das refeições...Eu pude enxergar o brilho nos olhos dele, o que me deixava com vontade de sorrir. De volta a escola, ele passou a interagir mais com todo mundo. Fazia as atividades esportivas e não ligava mais para que os outros estavam falando dele. Ele estava bem. Me lembro de uma cena que não saiu mais da minha cabeça..o dia que ele me pegou no colo e disse: "Obrigado." Não sei onde ele estará agora. Se ficou na cidade, se fez uma faculdade, se está trabalhando, se está feliz, quem são seus novos amigos...e,uma questão muito importante: Será que ele divide Torrone com alguém?! (Pedro era um garoto com autismo e isso não fez dele uma pessoa menos alegre, menos interessante e mais medrosa...isso fez com que ele fosse apenas diferente, como todos nós somos um dos outros... e é uma pessoa que guardo para sempre no meu coração)

Um comentário: